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Cara Gente Negra Brasileira, essa história é sobre você

"Você não é tão negro assim, sua pele é clara. " Sabe qual é o problema na afirmação acima? Bem são vários. Um deles sugere ...



"Você não é tão negro assim, sua pele é clara. "

Sabe qual é o problema na afirmação acima? Bem são vários. Um deles sugere a negação da sua raça, uma tentativa de se afastar da versão mais menosprezada da sociedade ou de você mesmo. O outro problema é que ela te engana. Faz você acreditar que esta tudo bem até que a realidade cruel bate na sua cara e você precisa encarar o fato de, mesmo com privilégios de pele clara, você é negro.

Um dos diálogos deixa isso bem claro com a personagem Sam White (irônico não?) de Dear White People. O seriado que recebeu recorde de dislikes em produções do Netflix no Youtube trás uma narrativa bem sutil até para discutir questões raciais.  Sério, não foi aquela afronta agressiva, que aponta o dedo e grita até a pessoa escutar que ela precisa parar de ser racista.

Tudo começa com uma festa que promove o black face em um campus da universidade de Winchester e que une diferentes perfis de negros que, enfim, não puderam suportar tal nível de desrespeito.  Essa prática reforça estereótipos que impulsionam violência contra o povo preto e é ai que a ferida começa a doer a ponto de movimentar tantos dislikes. Ninguém gosta de olhar no espelho e perceber que carrega nuances monstruosas na face, mesmo sutilmente a série se torna esse espelho para a maioria dos brancos, brasileiros também.

Como já foi discutido antes pela doutora em Psicologia Social pela Universidade de São Paulo (USP), Lia Vainer Schucman, a maioria deles é racista mesmo sem querer.



Não me chame de racista!

Há um episódio intenso com alunos brancos indignados ao verem Reggie Green (Marque Richardson), um dos protagonistas negros, que não aceita que eles usem a palavra Nigga/Criolo cantada no Rap que embala a festa.

Esse episódio se conecta com a recepção da série na internet de uma forma tão imprevisível e fantástica como nenhuma ficção poderia criar. Cada um desses que apertaram o botão de dislike no Youtube estava representado por aqueles alunos que defendem o direito de continuar a chamar seu amigo de criolo enquanto o policial aponta a arma para a cara dele e todos sabemos que a relação de polícia com a comunidade negra é muito intensa nos EUA (talvez pior que a do Brasil), devido a tal 13º Emenda e a forma com o qual esse sistema se tornou capitalizado, uma verdadeira máquina de fazer dinheiro com a vida dos pretos.



Desrespeitar um povo com ofensas só agrava a situação, diminuindo mais ainda a percepção do valor de nossas vidas.  Do outro lado do cano da arma pode ter alguém incapaz de lidar com essa situação. Na série, era Reggie. Na vida real pode qualquer um de nós, mas não se iluda, o policial não puxa o gatilho sozinho, ele puxa com a força e o claque de quem dá dislike. 

Então acredite, você é negro sim. 

Samanta White acordou para a causa negra após ser rejeitada em uma festa, mas nem todo mundo tem esse privilégio - se é que podemos chamar assim. Colandrea lembra sua amiga, por vezes inimiga, que as pessoas julga-na, apenas de olhar,  como uma pessoa de educação precária, sem família, uma mulher que não se apresenta para os pais, mas boa de cama. E quantas vezes você já foi julgado como incapaz ou quantas vezes concorreu a uma vaga que era certa pois conhecia os concorrentes e sabia do seu currículo, mas algo inexplicável o afastou do emprego - não podemos esquecer daquele teste que evidenciou o racismo entre profissionais de RH.

O Brasil perpetuou por décadas um pensamento nocivo que destrói a consciência negra, a tal Democracia racial. Uma propaganda do Governo de Getúlio Vargas que difundia a falácia de igualdade para todos os tipos de pessoas no país. - Você já ouviu aquele papo de que só existe uma raça, a humana. É um resquício dessa propaganda do Getúlio. 

Isso cria o cenário de hoje: milhares de negros que não se aceitam ou não sabem que são negros. Alguns acreditam em seus privilégios de pele clara, os "mais aceitáveis", outros simplesmente conseguiram se esquivar por muito tempo de situações agressivas e confrontos diretos. Talvez a grana, talvez a cidade pequena, mas são negros como o Neymar que afirmou "nunca ter sofrido racismo porque não é negro".

Ou como o ator Global,  Vinícius Romão de Souza que passou 16 dias preso, confundido com um "preto qualquer" que roubou  uma copeira do Hospital Pasteur. Humilhado, rasparam-lhe a cabeça e enfim ele percebeu que existia racismo no país. Pensava que esse tipo de coisa nunca aconteceria aonde todos são iguais. - revelou em uma entrevista a um programa na emissora.

Você pode muito bem evitar se definir como o Neymar, mas uma dia a verdade bate a sua porta. No caso dele foi a banana em um jogo de 2014. No caso do Vinícios foi a cadeia, só que não precisamos ir longe.



Fora das telas a verdade é apenas aquela sensação de ser o mais feio da sala de aula, o de nunca receber convite para festas de amigos. O de nunca vencer uma eleição para líder estudantil, o de não ser aceito na casa de alguns amigos porque os pais deles ficam desconfortáveis contigo, o de ser revistado pela ronda escolar várias vezes no mês, a piada de um funcionário do clube sobre você ter um "pé na cozinha". Ou mesmo, a verdade chega quando a família de uma namorada não te aceita mesmo que você faça das tripas coração para tirar as melhores notas, trabalhar dois períodos e cuidar dos irmãos em casa.

Em boa parte dos casos isso acontece por um motivo simples. Porque você é Negro e é exatamente por isso que essa série é sobre você.  Troy o filho do reitor da faculdade teve essa epifania no último episódios, quando a polícia do campus precisa agir é sempre com truculência. Mas (espero) que não precisamos passar por situações assim para abrir os olhos. 


Cara Gente Branca coloca muita gente branca na frente de um espelho, assim como reflete também a variedade de pessoas negras. Do gay tímido, o negro africano, a negra alienada problematizando sobre seu cãozinho, a negra que se rende ao machismo e procura um homem (por vezes branco) para salvar sua vida, o negro ativista intelectualizado, o filho prodigioso do papai e até o seu pai que venceu batalhas mais intensas e quer protege-lo dessa dimensão de luta racial. 

Cada episódio mostra um ponto de vista, um tipo de pensamento e um drama dentro dessa rede conflituosa cuja resolução, aparentemente, se dará pela unicidade e consciência daqueles que estão acordados.  Entretanto, é tudo fantasia.

A vida real pode ser mais desafiadora.  Tentar mudar esse cenário e inverter a polaridade da representatividade requer um grande número de pessoas aderindo a causa.
Ah sim, tenho uma notícia extremamente empolgante sobre isso. É que somos a maioria por aqui, se quiser fazer a diferença basta ajudar outros irmãos a acordarem, quem sabe dizendo coisas como "acredite, você é negro".  Não estamos a sós e não precisamos ficar calados. Não mais. 





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